Crescer, Cair, Falar, Amar

Crescer, Cair, Falar, Amar

Os anos passaram de maneira quase imperceptível. Desde o instante em que te vi pela primeira vez — ainda tão pequena, frágil, um bebê sem nenhuma consciência do mundo ao redor —, tudo começou a mudar. Lentamente, quase como um milagre cotidiano, você foi crescendo. Um centímetro aqui, uma palavra ali. E, sem aviso, o tempo foi te moldando diante dos meus olhos.

Eu me lembro exatamente do dia em que você deu os seus primeiros passos. Interrompi tudo o que estava fazendo, joguei o pano de prato longe e gritei pelo seu pai com a empolgação de quem acabara de presenciar um eclipse raro — ou de quem estava diante da oitava maravilha do mundo. E, honestamente? Pra mim, era exatamente isso. Um momento mágico. Pequeno, mas com um significado imenso.

Depois vieram as primeiras palavras. "Mamãe." Só isso. Uma palavra simples, comum até — mas quando saiu da sua boca, carregada de inocência, ela ganhou um peso que nenhum dicionário seria capaz de descrever. Foi uma flecha certeira direto no meu coração, dessas que marcam pra sempre. E não parou por aí. Com o tempo, você passou a construir frases, a se expressar melhor, até que um dia eu ouvi você dizer: "Eu te amo." Foi ali que tudo parou. Senti como se o mundo tivesse feito silêncio só pra dar espaço àquelas três palavrinhas.

Te abracei com tudo que tinha. Com o corpo, com a alma, com uma vontade quase desesperada largar tudo ao redor só pra ter você. Eu só queria ficar ali, com você nos meus braços, para sempre.

Também me lembro das noites em que você chorava baixinho no quarto, sem conseguir dormir, às vezes por um pesadelo, às vezes sem motivo algum além do desconforto de existir naquele pequeno corpinho. E eu estava lá. Sempre estive. Não importava se era meia-noite ou quatro da manhã, você precisava de mim, e isso era o bastante.

Eu vi você brincar com seus brinquedos, transformar o sofá da sala em uma montanha mágica ou a caixa de papelão em uma nave espacial. Um dinossauro de plástico virava guardião do universo. Um ursinho de pelúcia ganhava nome, personalidade, história. E ali, naquele mundinho inventado, você criava beleza com o que o mundo chamaria de “coisas pequenas”.

Vi você entrar na escola, vi você fazer amigos, dividir brinquedos, aprender a lidar com as frustrações da convivência e, ao mesmo tempo, cultivar sua gentileza natural. As notas sempre vinham boas, e os professores falavam de você com brilho nos olhos. Você era — e é — um orgulho sem medida.

Eu vi tudo isso, minha filha. E mais. Vi coisas que talvez você mesma tenha esquecido, momentos tão breves que mal deixaram vestígios. Mas estão aqui, guardados em mim com um carinho que só uma mãe pode explicar.

Tudo isso se estendeu até os seus dez anos de idade. Nessa fase, você já começava a desenvolver uma compreensão um pouco mais clara sobre o mundo ao seu redor. Ainda era uma visão filtrada pela inocência da infância, como deveria ser, aliás. A sua percepção ainda era delicadamente pura, repleta daquela ingenuidade bonita que o tempo, inevitavelmente, se encarrega de apagar. E, por mais que eu soubesse que um dia essa inocência seria substituída pela maturidade, eu queria que esse processo acontecesse de forma natural, no seu tempo, sem pressa. Era meu dever — e minha promessa silenciosa — garantir que seu amadurecimento ocorresse da maneira mais saudável e amorosa possível.

Parte do que tornou esse período tão especial foi a presença constante e, finalmente, plena do seu pai. Ele havia deixado para trás aquele comportamento estranho e hesitante que mostrava antes do seu nascimento. Sabe aquele homem que parecia não saber onde pisava, que evitava te encarar como se não estivesse preparado para o que viria? Pois é, ele ficou no passado. No lugar dele, surgiu o pai que eu sempre soube que existia dentro dele, talvez apenas um pouco adormecido pelo medo ou pela incerteza.

Ele estava presente, verdadeiramente presente. Brincava com você no chão da sala como se o mundo lá fora não existisse, inventava músicas bobas só para te ver rir, fazia caretas dignas de um palhaço só para ver um sorriso teu surgir. E aquilo me emocionava de um jeito que palavras dificilmente conseguem alcançar. Ver vocês dois juntos, tão conectados, era como assistir a um reparo silencioso sendo feito — não só nele, mas em mim também.

Porque, no fundo, eu carregava o receio de que ele não estivesse pronto. Que ele talvez falhasse contigo como tantos falharam comigo no passado. Mas ali, diante da cena de vocês dois jogando almofadas um no outro como se fosse o maior evento do mundo, eu percebi que estava errada. Ele só precisava de tempo. Tempo para entender o peso e a beleza de ser pai. Tempo para se reconhecer como figura de referência, como espelho para você. E, com isso, ele deixou de ser apenas meu parceiro. Tornou-se, de fato, um pilar importante na sua vida também.

E isso, mais do que me realizar, me trouxe uma paz imensa. Porque, no fim das contas, eu só queria que você crescesse cercada de amor, com dois braços te amparando ao invés de um só. E ali, vendo vocês dois juntos, eu soube que esse desejo estava se tornando realidade.


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